quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

tomate com sal

não sei exatamente até quando vou continuar fingindo que sei lidar bem com tanta solidão. não sei exatamente até quando vou continuar fingindo que não sinto falta de uma pessoa para quem eu poderia ligar agora, completamente desesperada, pra dizer que não tenho sido uma pessoa feliz. já não suporto tanto peso, são cento e tantos quilos de muita falta, de muitas ausências, de muitas indecisões, de coisas e pessoas deixadas para trás. e como, como, como, como, como, como, como, como para que meus joelhos e meus pés me aguentem cada vez menos, para que me façam parar completamente.

esbarro em portas, quinas, cantos. cada vez caibo menos por ai, vou tomando umas e outras dores para me enganar das minhas. quando foi que abri mão? quando foi que abriram mão? é sempre muito engraçado pensar no quanto amizade sempre significou coisas tão diferentes para mim e para os meus amigos. no quanto meus amigos não souberam, não quiseram, não precisaram persistir, de alguma forma, por mim. no quanto eu sempre fui o pesinho que segura o papel, leve, em cima da mesa. se, por um acaso, eu (re)virasse papel, me deixavam voar. me deixaram voar. sempre. e eu me via sendo levada, e tudo pesava, eu conseguia voltar para a mesa, (re)virar pedra e segurar meu papel.

mas sempre fui o ombro, o ouvido, o abraço, o sorriso, o carinho, o afago, o consolo, o abrigo. sempre conheci tanto todas essas pessoas que estiveram em cima da mesa, debaixo do meu peso, mas quase nada ou muito pouco me conheceram. precisaram de mim quando eu estive perto. se longe, para que? tudo é substituível. faz sentido, né? faz sentido. é tão mais simples, mais leve precisar de alguém que está pertinho da gente. precisar de quem está longe é burrice, é cruel. é a velha lógica dos arrependimentos que aparecem depois das perdas, é a velha lógica que não tem nada a ver com aquilo de viver cada dia como se não houvesse amanhã, ou de amar as pessoas, também, como se não houvesse amanhã. pra que sentir falta? importantes são os que aqui estão. todo o resto: passou, passaram, passarão, passarinho

quem é aquela que está ali olhando de longe? quem é aquela que não está aqui me ouvindo, me seguindo, me pedindo, me implorando? não conheço. não me importo. será que ela está precisando de alguma coisa? ah, bobagem, let it go. let it go. se ela quiser que procure, né? pra que que eu vou atrás? que que eu vou fazer ali? quem é aquela? quem é aquela? quem? quem é? quem? quem.. quem..... que........ muitas vezes me fingi papel só pra ter uma pedra que me colocasse de volta em cima da mesa. é verdade que muitas dessas muitas vezes me decepcionei. quantas decepções. e quantas vezes passei por cima disso tudo, só pra continuar mendigando mais um pouquinho. por atenção, por consideração, por qualquer coisa que fosse um pouquinho melhor e mais aconchegante que aquela indiferença toda.

já fingi gostar de tanta coisa, já fingi odiar tanta coisa, já me escondi tanto para ser aceita. já me anulei tanto. e sempre com aquela pose de durona, ensinando para as pessoas como é bom ter personalidade forte. já comi tanto tomate com sal só pra poder ser convidada para aquele momento de sentar no mezanino e comer tomate com sal. já fingi estar satisfeita com meio tomate com sal só pra não me acharem gulosa demais, só pra não correr o risco de perder o direito de estar ali comendo tomate com sal.
já ri em tantas brincadeiras idiotas, já passei dias e mais dias brincando de coisas que eu não gostava.. só pra poder ser convidada pra brincar sempre. só pra ser aceita em todos os momentos antes e depois de comer tomate com sal. já me diverti com tanta mentira, já agradeci muito por poder, apesar de toda a mentira, estar em algum lugar com alguma pessoa que soubesse fingir fazer questão da minha companhia.

cresci repetindo tudo isso. até que acreditei tanto em todas as mentiras que pensei que já não tinha mais mentira nenhuma. que as coisas estavam, finalmente, se tornando verdadeiras, duradouras, recíprocas, maduras.. que as pessoas estavam me conhecendo de verdade, que me amavam, me precisavam não só perto, mas longe também. e ai chega esse momento em que a desculpa para tudo é que estamos crescendo e que crescer dói.
que crescemos nos vendo cada vez mais sozinhos, que crescemos cada vez mais distantes do mundo e cada vez mais próximos de nós. talvez por isso tantas perdas. fica mais difícil olhar para o outro, compreender o outro, cuidar do outro, amar o outro. né? num é isso? e a vida vai ficando corrida, não sobra mais tanto tempo pra essas coisas de lidar com os outros mundos que também estão crescendo e rodando por ai. né? é isso? é assim que se explica?

que seja. não importa. sei que não tem volta. não tem volta porque deve ter tudo se acabado mesmo, não há mais papéis, nem pedras, só um resto de qualquer coisa que, por um acaso, ficou daquele tempo de quando haviam papéis e pedras em cima das mesas. e é como se não houvesse mais outra possibilidade, é como se fosse mesmo o fim de tudo.

agora tenho que seguir sendo pedra e papel para tudo isso que existe aqui dentro de mim. ou tenho que me forçar a acreditar que há, ainda, algumas possibilidades. se eu fingir mais um pouquinho, me anular mais um pouquinho, posso ter ainda alguns papéis para pesar. mas não tenho forças pra isso. é como se estivesse totalmente imersa em um monte de óleo pesado, feio, fedido, nojento, e não consigo me livrar disso, me afundo cada vez mais. quero tirar tanta coisa de cima de mim, tanta. quero tirar esse peso de pedra que já não suporto mais. desde que tive que ser pedra e papel, não tenho me aguentado mais. será que se sentiam assim todos aqueles papéis que deixei voar? será que foi voo mesmo? alívio diante da minha ausência? será que é disso que preciso para me sentir melhor?

como me ausentar daqui? como me livrar de mim mesma? e o medo que dá de continuar, mesmo livre de mim, sentindo todas essas faltas?

"Thousands of answers,
for one simple question,
come take the weight off me, now.

I'm like a kid who just won't let it go,
Twisting and turning the colours in rows,
I'm so intensified that's what it is.
This is my Rubik's Cube
And all i can't figure it out.."

domingo, 30 de outubro de 2011

Como roubar um coração

"Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto,
não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá trabalho,
requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente
tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele,
vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós
e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade,
a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você."

Luís Fernando Veríssimo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

berço


"[...] são os laços que fazemos na vida e assim a vida ganha sentido humano. Fazer laços belos e brilhantes que se desfazem suavemente quando o mistério da vida assim faz... como o mar beija a areia devagar no tempo dele e se vai. Fui despedir de Rafaela e encontrei "duas" pessoas: um laço, um belo laço.

Amor,
Mamãe."
26/06/11

segunda-feira, 30 de maio de 2011

if it kills me

tem tanto conflito dentro de mim. eu acabo comigo, quase o tempo todo, e a culpa é toda minha. pior de tudo é quando enfraqueço e sinto que não posso. tem tanta coisa que sinto e que sinto que não posso sentir. e tudo isso transborda, sabe? se ficasse só aqui dentro, mas não. não consigo esconder. fico imóvel, quase não pisco, quero gritar, chorar, mas fico muda, não salivo.

às vezes me sinto como um silêncio, um vazio, entre o que quero e o que posso ser. e o que posso é, quase sempre, muito pouco pra mim. exijo muito dos outros, mas, juro, que exijo mais de mim. hoje tô me sentindo obrigada a pedir desculpas por tanta exigência. sempre que exijo, tento fazer de um jeito meio velado, não sei nem sei as pessoas chegam a perceber. acredito, na verdade, que a maioria não percebe não. após quebrado o primeiro gelo: "ah, ela não é um monstro, aquela cara fechada não quer dizer muita coisa, ela é legal, ela é muito legal, ela é especial.", fica tudo certo. mas eu exijo, o tempo todo. eu sou um monstro sim. não importa se o mundo vê ou não, eu vejo, e isso basta, né? eu tenho que engolir minha arrogância, tenho que engolir minha prepotência, meu ego que não cabe dentro de mim. a minha sorte é que me incomodo com isso. do contrário eu não me suportaria mais mesmo. não permitiria que ninguém me suportasse. porque tenho que ser justa, né? tenho que ser correta, tenho que ser coerente, tenho que. tenho. tenho. tenho. tenho. tenho. eu sou um peso. e por isso não emagreço, por isso me dôo tanto. e, ainda assim, ninguém pode ser melhor que eu naquilo que acredito que sou boa. se sou boa em alguma coisa, não tem ninguém melhor ou tão bom quanto. sou eu, eu, eu, eu, eu.

e você, meu amor, você me faz olhar pra fora dessa confusão toda, mas, me desculpa. eu exijo de você também. eu faço um tanto de coisa errada. um tanto. eu me incomodo com certas coisas que sinto que não posso, e paraliso. ai você vem e me desarma. não sei como, ninguém nunca soube, nem eu. eu não sei o que você faz. mas também não queria que tivesse que fazer alguma coisa. você devia me mandar à merda. quem, Diabos, eu penso que sou? eu me castigo o tempo inteiro por essas oscilações. por que você me abraça? por que você me esquenta? por que você me dá carinho? por que você fica? por que você me deixa ficar assim, até passar? por que você me ama mesmo quando poderia e deveria me detestar? por que você não me deixa?

tem um tanto de coisa errada e a culpa é toda minha. mesmo se não for, acaba sendo. e eu não vou mudar, sabe? eu não vou ser menos incoerente aqui dentro. sou uma coisa que, muitas vezes não quero ser, e vou me punir por isso por toda a minha vida. mas punir não faz com que eu deixe de ser o que não quero ser, tudo isso por que sou, só não quero. não me quero pra você. te quero pra mim, mas você não devia me querer pra você não, sabe? não devia mesmo. e eu nunca vou ser boa o suficiente pra você, nem pra ninguém, porque não o sou pra mim. eu quero, e tento, te dar asas, mas a verdade é que só tenho te prendido. não sei dar asas a ninguém, não sei voar.

voa, amor... que você merece mais do que o que tento te dar: céu.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - V



"(...) seu sorriso me atropelou e a sua luz iluminou. Bate o tambor no coração da menina, na esquina pode estar o amor, é o calor que vem do lado de cima, quem que pôs o fogo no cobertor? Será o sol que tem ciúme da lua por não ver a noite nem o luar? Será o som que vive dentro da gente e aponta o caminho do mar?" Lô Borges e Fernando Brant.





08.
na verdade eu não tenho muito o que dizer e não é porque não tenho exatamente, mas sempre tive dificuldade para escrever o que não me aflige. não tenho aflições agora, não agora, nesse exato momento. agora tenho essa aula que acontece e não me ocupa.

não tenho me ocupado com aulas esses dias e não é porque estou me ocupando com outras coisas, é só que com aulas não. de preocupações me ocupo. "faz sentido?" (acho que essa foi a frase mais relevante que ouvi desse professor esses dias)

15.
não importam as voltas, nós já sabemos onde quero chegar. tem sido mesmo o meu destino. o único. e nesse exato momento isso não me aflige, não sei daqui a pouco. posso me virar, olhar aqueles olhos e me afligir. não sei por que me afligiria, mas talvez sim. me vi olhando e fazendo um retrato de palavras azuis. fazendo um retrato dos azuis em palavras, mas talvez não seria possível.

eu não sei como consegui passar tanto tempo sem sentir o que em mim mais esquenta. não sei como pude pensar que isso não era necessário, na verdade, eu queria até que continuasse não sendo. queria mesmo. queria que olhos, bocas, seios, mãos não passem de vistas, gostos, ar, gestos. toques não, ou sim, não sei.

18.
se ela soubesse que me faz sentir viva, que me faz mulher... não sei porque usei "se", mas é isso. estou viva mesmo. e agora volta o medo. eu não saio mesmo da sua cabeça? sou eu? só eu? é mesmo verdade isso tudo?

eu queria te agradecer pela música, pelas cores do céu, pelo céu das suas cores, muito. fica. pra sempre? de qualquer jeito. só fica, perto ou longe. fica. não, longe não, ainda não. fica assim desse jeito que me faz querer falar de amor o tempo todo. fica assim que eu vejo melhor. sinto melhor, sou melhor com você. fica?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - IV



"(...) hoje não canto, não falo, não saio, não durmo bem. Os tênues fios que me ligam a você estão hoje em prantos e, no entanto, arriscamos tanto nos envolver. Desligo você, nus, deslizamos. pra que te esquecer se o amor é tanto? Existo em você por louco engano." Luíz Gabriel Lopes e José Luis Braga.



06.
sei que, no fundo, fui a voz que te chamou aqui pra fora, que te lembrou desse mundo nosso que pode ser pelo menos um pouco mais doce que ficar presa aos seus pesos todos. e quando eu disse que não devo querer de você nada mais que isso é porque não suportaria ser a mão que te levaria de volta pra lá. não quero te frear, eu te chamei pra essa estrada, não foi? e chamei de coração. não foi por mim. não. foi por você.

não posso te pedir pra que me acompanhe, não posso querer não te perder de vista, não posso. e você ainda vem me falar sobre tatuar pássaros. e eu aqui me incomodando com a sua decolagem. não posso, meu bem, isso seria um absurdo, quase um crime. se for para ser amor, que ele te vista de asas, do contrário não deve servir, nem pode, nem vai. não serve.

00.
te falo do que sinto de seus olhos, você me diz que quase chora. te digo que seus olhos têm muita alma e que sua alma tem muitos daqueles passarinhos. você diz que não sabe como os vejo, mas se vejo, vejo mesmo. ai te digo que não sei se funcionaria com outros olhos que não os seus. ai você me fala de amizade.

amiga, eu casaria comigo se estivesse me ouvindo. depois, em uma noite daquelas, você me beija, me esquenta e me quer, amiga. e ainda não me entende quando digo que tenho medo. o meu medo vem exatamente da sua falta de medo. vem das suas oscilações, vem do quanto parece que você não sente medo porque não sente nada, amiga.

45.
e me ocupo dessa vontade enorme de não mais querer, quando me sinto quase apta você sopra em meu ouvido o convite para o frescor dos seus beijos cada vez mais quentes. me lanço, amiga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - III

(21)

"when you're down and troubled and you need a helping hand. and nothing, oh, nothing is going right, close your eyes and think of me and soon I will be there to brighten up even your darkest night. you just call out my name and you know, wherever I am, i'll come running to see you again. winter, spring, summer or fall, all you got to do is call and I'll be there, yeah, yeah, yeah. you've got a friend." Carole King.

22.
é que eu te sinto tanto. dissemos hoje que as pessoas te veem e imaginam uma vida perfeita dos olhos azuis, dos mesmos olhos do mesmo azul. tolos, todos tolos, meu bem. quando te disse que sinto suas oscilações de humor ao longo do dia, ah, não sei se o faria se não fossem esses olhos. se não fosse a alma sua que seus olhos, translúcidos, não deixam calar.

48.
não é à toa que me perco ao te olhar. não é à toa. porque te sinto tanto. nunca pensei em sentir o que vejo do que veem outros olhos que não os meus. nunca pensei que meus olhos pudessem ser capazes de sentir assim. e o que mais gosto dos seu olhos é que posso senti-los ainda que os meus estejam completamente fechados.

-

01.
mas é que hoje senti um medo enorme diante da sua força que transbordava em lágrimas. não exatamente medo, quer dizer, medo sim. medo de ter que ser o seu apoio. não sei se me aguento, diante da minha força que se faz fraca perto dos pesos que você carrega dessa vida.

medo que tudo isso acabe com você, sabe? medo desse meu silêncio constante diante dos seus pedidos de socorro. quero tanto poder te ajudar, mas, confesso, não tenho a mínima idéia de por onde começar. hoje senti que a primeira coisa a fazer é não querer de você nada mais que isso.
olha, não é pouco não, meu bem, acho que é suficiente. é só que ainda não consegui evitar esse querer mais de nós, mas só ainda, isso pode mudar.

imagina se diante de todas essas coisas que vivem dentro de você, ainda aparecesse esse peso de amar errado. não quero ser peso, nem dor, nem medo, nem nada. só ouvidos e colo. quando você me pergunta como poderia agradecer, me vejo te pedindo um beijo. te vejo me beijando. para agradecer. como se isso que há de lindo entre nós estivesse sendo negociado. não quero isso para nós, não posso deixar que o seu desespero me cegue também.

não posso fingir que não me pergunto se sua correspondência não é apenas mais um ato de desespero. e não é orgulho de não querer ser "usada'', te juro, meu bem, é só vontade de te mostrar que, de algum jeito, as coisas podem ser diferentes. é só para te mostrar que estou aqui para você, estou e fico porque quero ficar, estou e fico sem que você precise me agradecer.

40.
estou e fico sem que você precise retribuir aquilo que nem estava planejado. fico porque você está, fico porque nós estamos, segura minha mão, sem medo. eu não vou soltar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - II


"(...) há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus, seria bom: quatro paredes, eu, você e Deus. Procuro explicar o meu sentimento e só consigo encontrar palavras que não existem no dicionário, você podia entender meu vocabulário, decifrar meus sinais, seria bom." Marisa Monte.



21.
eu sabia que não podia ser loucura, eu sabia, eu sabia que partiria de mim, mas que ela não iria fugir. só que sabia, também, que aquela não era a hora, não era a hora, mas foi. e foi lindo, bem como deveria ser. não me lembro muito bem da ordem dos acontecimentos, mas me lembro que tudo começou com um cafuné, um dar de mãos, pedidos de desculpas, lágrimas, distanciamentos, abraços e "eu queria poder corresponder" seguido de um doce encostar de lábios.

mentiria se dissesse que não encostei meus lábios. encostei, sim, mas só. queimava tanto que as lágrimas não paravam de cair. não fui eu quem abalou a imobilidade dos lábios que, docemente, se encostavam. não fui eu. tive medo quando percebi que ela se movia, mas nada em mim me convencia a continuar parada. e a boca tinha exatamente a mesma maciez que eu imaginava, a mesma temperatura, e eu tinha certeza que sentiria aquela mesma dormência quando tocassem-se as línguas.

eu não podia parar, eu não podia perder, e não podia nada, e doía. daquelas dores que transbordam e atingem cada pedaço provocando um misto de alegria e desespero e arrependimento e vontade sem fim. depois mais distanciamentos, pedidos de desculpas, lágrimas, juras, medos, e um novo encostar de lábios. não me movi. de novo. e ela me embalando com aquela troca que já parecia nossa. aquele beijo que já sentia há muito, apesar de nunca ter sido.

minha mão no pescoço, meu coração na boca, minha boca nela. dela. as pessoas chegam e "boa noite". o que não entendo é de onde veio a falta de capacidade de corresponder que ela me disse ter. e por que o beijo então? sugeri que esquecêssemos tudo. sugeri que acreditássemos que tinhamos bebido além da conta e que, por isso, passamos dos limites. "não".

01.
ela não queria esquecer, nem colocar a culpa em outra coisa qualquer. ela queria. ela quis. não pode ser só loucura, não pode ter sido só o alcool. não é, não foi. estávamos juntas naquela dança, é claro que estávamos. se não era ela que correspondia, quem era então?

sei que tudo piora quando cai a noite. parece que algo nela me hipnotiza e me puxa e me cerca e me mata. tudo que é meu grita a vontade de se aproximar dela, mas fico. e dói. e dói porque não sei. não se se fico, se vou, se amo, se não, sei que as minhas chances de escapar estão se esgotando, mas nada me tira da cabeça que, no fundo, ela queria mesmo não querer corresponder.

09.
me armo, me visto em armaduras. me digo que me guardo. te vejo, me entrego.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Amor em cinco atos - I


"Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço (...) Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar. Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara." Caio F.



14.
não sei se é a sibutramina, cansaço, alegria ou amor. lembro que já senti algo parecido, mas parece que, no fundo, essas coisas que beiram à loucura nunca se parecem por mais parecidas que possam parecer. sinto, por dia, uns quatro ou mais, ou menos, sentimentos fortes e opostos.

alegria, tristeza, raiva, cuidado, amor, tristeza, alegria, paz, inquietude, raiva, nervosismo, amor, amor, dor, medo, força, solidão, completude, amor, grande, tristeza, desespero, medo e amor. e a inquietude é de corpo e alma, daquelas que fazem a perna bater, mexer, tremer, como se fosse para o mundo virar de cabeça pra baixo, como se fosse para fazer barulho, muito barulho, para silenciar o mundo meu.

e de tanto barulho me irrito, me irrito bem na superfície da pele, bem no meio do estômago. falta ar, falta mesmo. e me coço, me mexo, não paro. e o amor, não sei, o amor é novo, é quente, é frio, é lindo. mas não é meu, é dor, é medo, é triste e lindo, e cuido e me completo só. só. sem ser amor do amor que amor. é mesmo novo, mas forte, e impossível, sabe? impossível porque vejo que é vidro ou sonho, e se esvai, e se quebra, no menor dos movimentos.

23.
e tenho que me conter, tenho que me calar, tenho que me controlar em meio a tanto descontrole. já não sei mais o que sentir diante desses olhos azuis brilhantes, explodo tudo aqui dentro para evitar vazar aqui fora. mas eu sei que vaza, eu sei que ela toca algumas dessas erupções, sei que ela fica. ela toca e fica. eu juro que fica. não pode ser só imaginação, nem loucura. não pode ser, porque eu quero muito que ela fique. mas quero mais que isso e não quero querer mais, eu juro que não quero, porque são tão lindos os olhos que não sei se saberei apreciar o azul do céu sem me lembrar do azul daquele olhar. acho que, mesmo que tudo acabe agora, eu nunca mais vou deixar de me afogar nesse mar.

e me afogo de perto. não sei se conseguiria nadar para ver um pouco mais de longe. não sei se me afogaria mais, não sei se conseguiria chegar em terra firme, não sei se quero tentar me salvar desse afogar de amor. não sei se posso, se devo. não sei.

e paciência? não consigo outra palavra que me irrite mais agora. porque é urgente demais, é tanto, tanto, mas tem a música, que veio com ela como se soubesse que seria preciso. a música veio com ela, dela, nela, como se soubesse que precisaríamos nos embalar. como se soubesse que eu precisaria me fazer falar de algum jeito, como se soubesse que eu precisaria ouvir todas as coisas mais bonitas do mundo só para não ter que dizê-las a ela.

56.
eu diria, juro que diria, muito menos que qualquer música, mas diria. e é tanto que ligo agora uma música e me calo. é tanto que me calo e ouço as coisas bonitas que ela ouve para calar ou falar o azul sem fim daquele mar-olhar.


domingo, 23 de janeiro de 2011

heavy cross

"it's a cruel cruel world to face on your own, a heavy cross to carry alone. the lights are on, but everyone's gone.. and it's cruel (...)

vira e mexe me vejo querendo saber como me controlar. sei muito sobre como as coisas começam dentro de mim, mas quase nada sobre como lidar com elas e até onde tudo pode chegar. sei de um milhão de coisas que me incomodam, sei dos meus vários níveis de incômodo, mas uma vez incomodada, perco o tom. desafino.

tenho um sistema de defesa emocional que é mais eficaz que qualquer sistema imunológico munido dos melhores e mais numerosos anticorpos do mundo. minha fragilidade travestida de maturidade e distanciamento proposital das coisas é o ponto forte de toda essa loucura. basta uma pontinha de perigo, um sinal de instabilidade no terreno pra começar a guerra: me dou por vencida antes mesmo de lutar. se luto, o faço em constante recuo, me defendendo, a qualquer custo, de qualquer coisa.

o problema é que me preocupo tanto com o coração dos outros, tanto, que, inconscientemente, exijo que lidem com o meu coração exatamente da mesma forma. mas não lidam, e nem devem, é meio insana essa necessidade de cuidar tanto assim do que não é nosso. mas não posso evitar, posso, devo, não consigo, eu acho. ai é assim: eu cuido. você cuida? para não ouvir nem sim, nem não, piro. me preparo para a dor e acabo repelindo tudo aquilo que não-é-para-ser-dor. e dói. porque eu fiz assim.

ainda nessa lógica, sempre me preocupo muito em não deixar dúvidas quanto ao que sinto pelas pessoas. gosto que elas tenham certeza do que encontrar em meu coração. e procuro, quase sempre, essa certeza em outros corações. quase nunca encontro. as pessoas não se importam muito em deixar as coisas claras. aliás, ultimamente, tudo que não é claro têm me incomodado tanto que acabo no escuro. acabo me calando pra não ter que ver o escuro. o escuro só é escuro se há o claro. se tudo tende a ser escuro, seja então, sem claro. não vou ficar tentando acender a luz, só assim não dói. à merda, dói sim.

dói porque luto contra mim o tempo inteiro. censuro minhas reações em constantes movimentos contrários a elas, mas não dou conta, sabe? nunca dou. sou minha maior fraqueza, disso não tenho mais dúvidas. vivo dizendo pra mim que ninguém sabe de nada, que deveriam aprender comigo a lidar com o outro, mas, meu Deus, que absurdo! não sei nem o que fazer do que fiz de mim.

dia desses disse a uma pessoa querida que estava me sentindo sozinha.

- Como assim? Como se ninguém gostasse de você?
- É. E também como se eu não gostasse de ninguém.

não se vive só. em lugar nenhum desse mundo. a questão é que, para mim, não basta quem simplesmente está. preciso, também, que saibam dizer que vão ficar.


(...) it's a funny way to make ends meet, when the lights are out on every street. it feels alright, but never complete without joy.."


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

súplica

apaga, apaga, apaga. tá doendo. por favor, apaga. é uma cena estupidamente linda que o que tem de estúpida é minha culpa. eu olhava para olhos que olhavam para outros olhos.. olhos, lindos, que olhavam. por que tive que colocar meus olhos e tornar estúpida a beleza daquele olhar?

por que fui me colocar entre os olhares? só por que me coloquei em sua vida um pouco antes disso? por que?

sentido

pra variar não sei do que quero falar. até sei, mas não vou porque não posso, ou não quero, bla, bla, bla. o bom escritor, para mim, é aquele que escreve para todos mas só é compreendido de fato por quem ele quer que o compreenda. a capacidade de censurar e direcionar a escrita é, para mim, indicador de excelência de um escritor.

não tenho pretensão de ser uma escritora, muito menos uma boa escritora, mas ando precisando manusear melhor as minhas palavras. ando precisando aprender a chegar onde quero chegar e levar só quem quero para chegar comigo. querências à parte, vamos logo ao que dá pra fazer:

tem uns sentimentos que me intrigam. aliás, sentimentos, quase todos, me intrigam muito. principalmente aqueles que sentimos. é óbvio que há essa divisão entre os sentimentos que sentimos e os que simplesmente existem dentro da gente. sentimentos que sentimos são aqueles que ultrapassam os limites do coração e invadem o corpo inteiro: tiram o ar, queimam no estômago, bambeiam as pernas, lacrimejam os olhos, ardem, ardem, ardem, e doem também. daquelas dores de torcer o corpo, sabe? de encolher tudo pra poder doer mais.

pode ser amor, raiva, ciúmes, tesão. às vezes é bom quando é amor, tesão também. mas a raiva e o ciúmes são de querer morrer por não poder matar, ou vice-versa. e o mais cruel é a hipocrisia de saber que sentir é extremamente humano, mas, na maioria das vezes, falar do que sentimos nos torna loucos, lunáticos, paranóicos, descontrolados, idiotas. idiota é sentir então. e é mesmo, mas como não dá pra evitar o sentimento, nos unimos e nos julgamos em idiotices.

se não fosse pelo sentir, eu diria que sou uma pessoa ótima para relacionamentos de todos os tipos. às vezes acredito que se mais pessoas pensassem e agissem como eu, o mundo poderia ser melhor. quase acredito que sou mesmo uma excelente amiga, uma excelente namorada... quase, porque antes de acreditar sinto. e quando sinto, sinto como todo mundo. nós temos, todos, uma fraqueza em comum e isso chega a ser bem bonito. sentimos, todos, e é essa uma das mais lindas e avassaladoras dores do mundo.

sentir não seria tão doído se se permitisse conviver com a razão, mas não. basta sentir para perdermos o fio da meada. há os que, ainda assim, conseguem fingir certo controle, há os que não, e, sinceramente, não consigo saber quem é melhor. esse falso controle redobra a insupotabilidade dos sentimentos, e a falta dele.. não sei muito bem o que pode causar não, mas deve causar coisas boas e coisas ruins, não só endossar o que se está sentindo.

não interressa, já foi, né? então boa noite.