sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - V



"(...) seu sorriso me atropelou e a sua luz iluminou. Bate o tambor no coração da menina, na esquina pode estar o amor, é o calor que vem do lado de cima, quem que pôs o fogo no cobertor? Será o sol que tem ciúme da lua por não ver a noite nem o luar? Será o som que vive dentro da gente e aponta o caminho do mar?" Lô Borges e Fernando Brant.





08.
na verdade eu não tenho muito o que dizer e não é porque não tenho exatamente, mas sempre tive dificuldade para escrever o que não me aflige. não tenho aflições agora, não agora, nesse exato momento. agora tenho essa aula que acontece e não me ocupa.

não tenho me ocupado com aulas esses dias e não é porque estou me ocupando com outras coisas, é só que com aulas não. de preocupações me ocupo. "faz sentido?" (acho que essa foi a frase mais relevante que ouvi desse professor esses dias)

15.
não importam as voltas, nós já sabemos onde quero chegar. tem sido mesmo o meu destino. o único. e nesse exato momento isso não me aflige, não sei daqui a pouco. posso me virar, olhar aqueles olhos e me afligir. não sei por que me afligiria, mas talvez sim. me vi olhando e fazendo um retrato de palavras azuis. fazendo um retrato dos azuis em palavras, mas talvez não seria possível.

eu não sei como consegui passar tanto tempo sem sentir o que em mim mais esquenta. não sei como pude pensar que isso não era necessário, na verdade, eu queria até que continuasse não sendo. queria mesmo. queria que olhos, bocas, seios, mãos não passem de vistas, gostos, ar, gestos. toques não, ou sim, não sei.

18.
se ela soubesse que me faz sentir viva, que me faz mulher... não sei porque usei "se", mas é isso. estou viva mesmo. e agora volta o medo. eu não saio mesmo da sua cabeça? sou eu? só eu? é mesmo verdade isso tudo?

eu queria te agradecer pela música, pelas cores do céu, pelo céu das suas cores, muito. fica. pra sempre? de qualquer jeito. só fica, perto ou longe. fica. não, longe não, ainda não. fica assim desse jeito que me faz querer falar de amor o tempo todo. fica assim que eu vejo melhor. sinto melhor, sou melhor com você. fica?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - IV



"(...) hoje não canto, não falo, não saio, não durmo bem. Os tênues fios que me ligam a você estão hoje em prantos e, no entanto, arriscamos tanto nos envolver. Desligo você, nus, deslizamos. pra que te esquecer se o amor é tanto? Existo em você por louco engano." Luíz Gabriel Lopes e José Luis Braga.



06.
sei que, no fundo, fui a voz que te chamou aqui pra fora, que te lembrou desse mundo nosso que pode ser pelo menos um pouco mais doce que ficar presa aos seus pesos todos. e quando eu disse que não devo querer de você nada mais que isso é porque não suportaria ser a mão que te levaria de volta pra lá. não quero te frear, eu te chamei pra essa estrada, não foi? e chamei de coração. não foi por mim. não. foi por você.

não posso te pedir pra que me acompanhe, não posso querer não te perder de vista, não posso. e você ainda vem me falar sobre tatuar pássaros. e eu aqui me incomodando com a sua decolagem. não posso, meu bem, isso seria um absurdo, quase um crime. se for para ser amor, que ele te vista de asas, do contrário não deve servir, nem pode, nem vai. não serve.

00.
te falo do que sinto de seus olhos, você me diz que quase chora. te digo que seus olhos têm muita alma e que sua alma tem muitos daqueles passarinhos. você diz que não sabe como os vejo, mas se vejo, vejo mesmo. ai te digo que não sei se funcionaria com outros olhos que não os seus. ai você me fala de amizade.

amiga, eu casaria comigo se estivesse me ouvindo. depois, em uma noite daquelas, você me beija, me esquenta e me quer, amiga. e ainda não me entende quando digo que tenho medo. o meu medo vem exatamente da sua falta de medo. vem das suas oscilações, vem do quanto parece que você não sente medo porque não sente nada, amiga.

45.
e me ocupo dessa vontade enorme de não mais querer, quando me sinto quase apta você sopra em meu ouvido o convite para o frescor dos seus beijos cada vez mais quentes. me lanço, amiga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - III

(21)

"when you're down and troubled and you need a helping hand. and nothing, oh, nothing is going right, close your eyes and think of me and soon I will be there to brighten up even your darkest night. you just call out my name and you know, wherever I am, i'll come running to see you again. winter, spring, summer or fall, all you got to do is call and I'll be there, yeah, yeah, yeah. you've got a friend." Carole King.

22.
é que eu te sinto tanto. dissemos hoje que as pessoas te veem e imaginam uma vida perfeita dos olhos azuis, dos mesmos olhos do mesmo azul. tolos, todos tolos, meu bem. quando te disse que sinto suas oscilações de humor ao longo do dia, ah, não sei se o faria se não fossem esses olhos. se não fosse a alma sua que seus olhos, translúcidos, não deixam calar.

48.
não é à toa que me perco ao te olhar. não é à toa. porque te sinto tanto. nunca pensei em sentir o que vejo do que veem outros olhos que não os meus. nunca pensei que meus olhos pudessem ser capazes de sentir assim. e o que mais gosto dos seu olhos é que posso senti-los ainda que os meus estejam completamente fechados.

-

01.
mas é que hoje senti um medo enorme diante da sua força que transbordava em lágrimas. não exatamente medo, quer dizer, medo sim. medo de ter que ser o seu apoio. não sei se me aguento, diante da minha força que se faz fraca perto dos pesos que você carrega dessa vida.

medo que tudo isso acabe com você, sabe? medo desse meu silêncio constante diante dos seus pedidos de socorro. quero tanto poder te ajudar, mas, confesso, não tenho a mínima idéia de por onde começar. hoje senti que a primeira coisa a fazer é não querer de você nada mais que isso.
olha, não é pouco não, meu bem, acho que é suficiente. é só que ainda não consegui evitar esse querer mais de nós, mas só ainda, isso pode mudar.

imagina se diante de todas essas coisas que vivem dentro de você, ainda aparecesse esse peso de amar errado. não quero ser peso, nem dor, nem medo, nem nada. só ouvidos e colo. quando você me pergunta como poderia agradecer, me vejo te pedindo um beijo. te vejo me beijando. para agradecer. como se isso que há de lindo entre nós estivesse sendo negociado. não quero isso para nós, não posso deixar que o seu desespero me cegue também.

não posso fingir que não me pergunto se sua correspondência não é apenas mais um ato de desespero. e não é orgulho de não querer ser "usada'', te juro, meu bem, é só vontade de te mostrar que, de algum jeito, as coisas podem ser diferentes. é só para te mostrar que estou aqui para você, estou e fico porque quero ficar, estou e fico sem que você precise me agradecer.

40.
estou e fico sem que você precise retribuir aquilo que nem estava planejado. fico porque você está, fico porque nós estamos, segura minha mão, sem medo. eu não vou soltar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - II


"(...) há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus, seria bom: quatro paredes, eu, você e Deus. Procuro explicar o meu sentimento e só consigo encontrar palavras que não existem no dicionário, você podia entender meu vocabulário, decifrar meus sinais, seria bom." Marisa Monte.



21.
eu sabia que não podia ser loucura, eu sabia, eu sabia que partiria de mim, mas que ela não iria fugir. só que sabia, também, que aquela não era a hora, não era a hora, mas foi. e foi lindo, bem como deveria ser. não me lembro muito bem da ordem dos acontecimentos, mas me lembro que tudo começou com um cafuné, um dar de mãos, pedidos de desculpas, lágrimas, distanciamentos, abraços e "eu queria poder corresponder" seguido de um doce encostar de lábios.

mentiria se dissesse que não encostei meus lábios. encostei, sim, mas só. queimava tanto que as lágrimas não paravam de cair. não fui eu quem abalou a imobilidade dos lábios que, docemente, se encostavam. não fui eu. tive medo quando percebi que ela se movia, mas nada em mim me convencia a continuar parada. e a boca tinha exatamente a mesma maciez que eu imaginava, a mesma temperatura, e eu tinha certeza que sentiria aquela mesma dormência quando tocassem-se as línguas.

eu não podia parar, eu não podia perder, e não podia nada, e doía. daquelas dores que transbordam e atingem cada pedaço provocando um misto de alegria e desespero e arrependimento e vontade sem fim. depois mais distanciamentos, pedidos de desculpas, lágrimas, juras, medos, e um novo encostar de lábios. não me movi. de novo. e ela me embalando com aquela troca que já parecia nossa. aquele beijo que já sentia há muito, apesar de nunca ter sido.

minha mão no pescoço, meu coração na boca, minha boca nela. dela. as pessoas chegam e "boa noite". o que não entendo é de onde veio a falta de capacidade de corresponder que ela me disse ter. e por que o beijo então? sugeri que esquecêssemos tudo. sugeri que acreditássemos que tinhamos bebido além da conta e que, por isso, passamos dos limites. "não".

01.
ela não queria esquecer, nem colocar a culpa em outra coisa qualquer. ela queria. ela quis. não pode ser só loucura, não pode ter sido só o alcool. não é, não foi. estávamos juntas naquela dança, é claro que estávamos. se não era ela que correspondia, quem era então?

sei que tudo piora quando cai a noite. parece que algo nela me hipnotiza e me puxa e me cerca e me mata. tudo que é meu grita a vontade de se aproximar dela, mas fico. e dói. e dói porque não sei. não se se fico, se vou, se amo, se não, sei que as minhas chances de escapar estão se esgotando, mas nada me tira da cabeça que, no fundo, ela queria mesmo não querer corresponder.

09.
me armo, me visto em armaduras. me digo que me guardo. te vejo, me entrego.