nunca pude te conhecer muito. apesar da pouca distância nunca soube muito bem qual rua me levaria até você. é, talvez eu não tenha tido muita vontade de experimentar caminhos, esse laço doce, mas superficial, sempre me pareceu suficiente. não chegamos a nos ver todos os meses nesses quase dezenove anos, ainda assim nunca soube o que era sentir saudades de você.
sempre foi bom ir a sua casa, apesar dos desconfortos velados, sempre quis morar ali algum dia. isso de um apartamento de três andares, as balas, os doces, o tapete felpudo, as plantas, a ducha, a vista, a tv a cabo, tudo muito mágico. minha relação com o seu espaço sempre foi muito mágica. na minha infância te pintava e te contava muito rico: o bom é que não precisava ser. eu achava que era e fantasiava assim você em seu castelo.
nunca deixou de me dar presentes no aniversário, nem no Natal, nunca juntou presentes das duas datas em uma só. antes os brinquedos, depois os envelopes brancos com um dinheirinho pra que eu pudesse comprar o que quisesse. só não sei se você se cansou de escolher, ou se achou melhor que eu passasse a escolher, enfim. talvez isso seja só o que posso dizer do que construímos, nunca soube e acho que nunca saberei o que exatamente eu significava para você. sei que você sempre gostou do meu bom desempenho escolar, sei que se orgulhou muito quando passei no vestibular, não sei se por ver em mim uma Márcia mais sonhada ou se... enfim, não sei, não sei.
você se foi e te conheci: falaram muito da sua honestidade. e da temperança, do tato, dos panos quentes, da educação, do carinho, do humor. ah, do humor eu posso lembrar também, vô, sempre capaz de fazer sorrir por ai. é quando te vejo na minha mãe: ela tem de você a capacidade de alegrar um lugar, de abalar certas estruturas, de descontrair. você foi (e é) muito admirado, que orgulho, vô, só lamento não ter podido compartilhar com as pessoas um pouco do Xisto que há em mim, mas foi bom poder ouvir para aprender um pouco sobre você.
te ver em sereno descanso foi, agora, te (re)conhecer. poderia dizer que tarde demais, poderia me afogar em arrependimentos, mas não. acho que não precisamos disso. seu rosto em meio a essas flores brancas e amarelas me trouxe seu riso elegante, seu sorriso bonito e a minha dor pela sua ausência. cheguei a dizer, algumas vezes, que meu maior (e talvez único) pesar seria a dor da minha mãe e dos meus tios, mas afogada em lágrimas descobri, com certo alívio, o meu amor desabrochado em dor.
descanse em paz, vô, se puder deixe alguns abraços e muitos sorrisos. te levo comigo, ainda bem!