quarta-feira, 10 de novembro de 2010

para Xisto

nunca pude te conhecer muito. apesar da pouca distância nunca soube muito bem qual rua me levaria até você. é, talvez eu não tenha tido muita vontade de experimentar caminhos, esse laço doce, mas superficial, sempre me pareceu suficiente. não chegamos a nos ver todos os meses nesses quase dezenove anos, ainda assim nunca soube o que era sentir saudades de você.

sempre foi bom ir a sua casa, apesar dos desconfortos velados, sempre quis morar ali algum dia. isso de um apartamento de três andares, as balas, os doces, o tapete felpudo, as plantas, a ducha, a vista, a tv a cabo, tudo muito mágico. minha relação com o seu espaço sempre foi muito mágica. na minha infância te pintava e te contava muito rico: o bom é que não precisava ser. eu achava que era e fantasiava assim você em seu castelo.

nunca deixou de me dar presentes no aniversário, nem no Natal, nunca juntou presentes das duas datas em uma só. antes os brinquedos, depois os envelopes brancos com um dinheirinho pra que eu pudesse comprar o que quisesse. só não sei se você se cansou de escolher, ou se achou melhor que eu passasse a escolher, enfim. talvez isso seja só o que posso dizer do que construímos, nunca soube e acho que nunca saberei o que exatamente eu significava para você. sei que você sempre gostou do meu bom desempenho escolar, sei que se orgulhou muito quando passei no vestibular, não sei se por ver em mim uma Márcia mais sonhada ou se... enfim, não sei, não sei.

você se foi e te conheci: falaram muito da sua honestidade. e da temperança, do tato, dos panos quentes, da educação, do carinho, do humor. ah, do humor eu posso lembrar também, vô, sempre capaz de fazer sorrir por ai. é quando te vejo na minha mãe: ela tem de você a capacidade de alegrar um lugar, de abalar certas estruturas, de descontrair. você foi (e é) muito admirado, que orgulho, vô, só lamento não ter podido compartilhar com as pessoas um pouco do Xisto que há em mim, mas foi bom poder ouvir para aprender um pouco sobre você.

te ver em sereno descanso foi, agora, te (re)conhecer. poderia dizer que tarde demais, poderia me afogar em arrependimentos, mas não. acho que não precisamos disso. seu rosto em meio a essas flores brancas e amarelas me trouxe seu riso elegante, seu sorriso bonito e a minha dor pela sua ausência. cheguei a dizer, algumas vezes, que meu maior (e talvez único) pesar seria a dor da minha mãe e dos meus tios, mas afogada em lágrimas descobri, com certo alívio, o meu amor desabrochado em dor.

descanse em paz, vô, se puder deixe alguns abraços e muitos sorrisos. te levo comigo, ainda bem!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

em 'nós' atadas

Você sabe porque eu "fiz isso", eu entendo que você não considere um motivo plausível, ou talvez considere plausível, mas não justo com a gente.. não sei. Talvez não tenha sido justo com a gente mesmo, aliás, realmente não foi. Não foi justo com a gente, mas foi comigo, eu acho. E acho que 'isso' aconteceu exatamente para me lembrar que existo, ainda, só. Acho que eu precisava mesmo ser lembrada que nem sempre o justo pra mim seria o justo pra gente, ou pra você, sei lá, eu ainda preciso muito de mim, embora precise muito de você e da gente também.

A questão é que não consigo aceitar que essa seja a hora de me fundir a alguém. Independente da minha certeza de que a fusão com você seria perfeita, não perfeita no sentido de não ter defeitos, acho que perfeita por tê-los. Perfeitas por nossos defeitos, nós, perfeitas por nosso jeito sempre muito nosso de lidar com nossos defeitos. Pela transparência, pela poesia, pela força, pelas dores, pelas mágoas, pelo perdão, por amor. Sempre, por amor.

Peço que me perdoe por parar por aqui. Acho que não há muito o que dizer além de um pedido de desculpas, peço que me desculpe. Peço que o 'nós' me desculpe também. Tenho me culpado bastante, mas tenho me perdoado também. Não sei muito bem se foi egoísmo, imaturidade, sei que foi do meu tamanho, sabe? Não tenho tamanho pro que somos ou éramos. E não adianta, você sabe que não adianta, nós fomos exatamente o que éramos, o que somos: gigantes. Não dava pra tirar nada, sempre foi tão grande, tão grande, foi a grandeza que, no início, me fez escolher por nós e, agora, escolher por mim, mas ainda assim a grandeza. A nossa grandeza. Ai de mim, ai de você, ai de nós se maldissermos a nossa grandeza. Tão linda, tão insubstituível, tão irredutível.

Tenho certeza que tudo o que vier pela frente não vai se comparar a nossa grandeza, acho que talvez esse tenha sido o meu medo, talvez ainda seja esse o meu medo, sei lá. Como posso, aos 18 anos, já ter construído e vivido a maior grandeza de mim? Quero ainda tentar considerar outras coisas grandes, outras coisas bonitas, pode ser que daqui a uns anos eu ainda nos considere a maior de todas as grandezas e belezas, mas quero tentar olhar em volta. E não, você não estava me sufocando, não é isso, tenta entender, por favor. Tenta entender, você me conhece sim, não fique dizendo o contrário, tente ver isso dentro de mim, não é possível que é tão difícil assim de me imaginar passando por isso.

Acho que quando eu me sentir grande, vai doer demais. Acho que vou ter crises constantes, talvez até comece a fumar. Me imagino bebendo bastante, sozinha, fumando e nos doendo profundamente. Vai ter espaço pra grandeza da dor do amor que poderia não ter não sido, porque ele foi, mas deixou de ser, e podia não ter deixado, né? Eu sei. Eu sei que poderíamos nos amar para o resto da vida, aliás, acho que nos amar para o resto da vida vamos, mas eu sei que podíamos ter sido 'nós' para sempre. Isso se não fosse 'isso'. Dói agora, dói sim. Mas dói na minha medida também, dói a dor que posso doer. É dor que vem em doses homeopáticas, é dor da vida, pra vida, eu sei. Cada dia dói um pouquinho, só que eu sei que tem muito pra doer, muitos dias de um pouquinho de dor, sei que é dor que não acaba mais. Agora o que cabe é pouquinho. Da dor ao amor, o que vier, só se for pouquinho. Um pouquinho de cada vez.

Por favor tente me entender, por favor me desculpe. Nos leve consigo até onde der conta, não precisa ter medo de se soltar de nós. Estamos bem guardadas aqui comigo, disso você pode ter certeza. E sempre que quiser e precisar, venha. Te quero feliz, por maior que seja o meu medo das grandezas que você pode encontrar pelo mundo. Acho que consigo te amar com asas, te voar com amor. Tente também, por nós.

Um sopro. Leve e grande,
Rafa.