quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

tomate com sal

não sei exatamente até quando vou continuar fingindo que sei lidar bem com tanta solidão. não sei exatamente até quando vou continuar fingindo que não sinto falta de uma pessoa para quem eu poderia ligar agora, completamente desesperada, pra dizer que não tenho sido uma pessoa feliz. já não suporto tanto peso, são cento e tantos quilos de muita falta, de muitas ausências, de muitas indecisões, de coisas e pessoas deixadas para trás. e como, como, como, como, como, como, como, como para que meus joelhos e meus pés me aguentem cada vez menos, para que me façam parar completamente.

esbarro em portas, quinas, cantos. cada vez caibo menos por ai, vou tomando umas e outras dores para me enganar das minhas. quando foi que abri mão? quando foi que abriram mão? é sempre muito engraçado pensar no quanto amizade sempre significou coisas tão diferentes para mim e para os meus amigos. no quanto meus amigos não souberam, não quiseram, não precisaram persistir, de alguma forma, por mim. no quanto eu sempre fui o pesinho que segura o papel, leve, em cima da mesa. se, por um acaso, eu (re)virasse papel, me deixavam voar. me deixaram voar. sempre. e eu me via sendo levada, e tudo pesava, eu conseguia voltar para a mesa, (re)virar pedra e segurar meu papel.

mas sempre fui o ombro, o ouvido, o abraço, o sorriso, o carinho, o afago, o consolo, o abrigo. sempre conheci tanto todas essas pessoas que estiveram em cima da mesa, debaixo do meu peso, mas quase nada ou muito pouco me conheceram. precisaram de mim quando eu estive perto. se longe, para que? tudo é substituível. faz sentido, né? faz sentido. é tão mais simples, mais leve precisar de alguém que está pertinho da gente. precisar de quem está longe é burrice, é cruel. é a velha lógica dos arrependimentos que aparecem depois das perdas, é a velha lógica que não tem nada a ver com aquilo de viver cada dia como se não houvesse amanhã, ou de amar as pessoas, também, como se não houvesse amanhã. pra que sentir falta? importantes são os que aqui estão. todo o resto: passou, passaram, passarão, passarinho

quem é aquela que está ali olhando de longe? quem é aquela que não está aqui me ouvindo, me seguindo, me pedindo, me implorando? não conheço. não me importo. será que ela está precisando de alguma coisa? ah, bobagem, let it go. let it go. se ela quiser que procure, né? pra que que eu vou atrás? que que eu vou fazer ali? quem é aquela? quem é aquela? quem? quem é? quem? quem.. quem..... que........ muitas vezes me fingi papel só pra ter uma pedra que me colocasse de volta em cima da mesa. é verdade que muitas dessas muitas vezes me decepcionei. quantas decepções. e quantas vezes passei por cima disso tudo, só pra continuar mendigando mais um pouquinho. por atenção, por consideração, por qualquer coisa que fosse um pouquinho melhor e mais aconchegante que aquela indiferença toda.

já fingi gostar de tanta coisa, já fingi odiar tanta coisa, já me escondi tanto para ser aceita. já me anulei tanto. e sempre com aquela pose de durona, ensinando para as pessoas como é bom ter personalidade forte. já comi tanto tomate com sal só pra poder ser convidada para aquele momento de sentar no mezanino e comer tomate com sal. já fingi estar satisfeita com meio tomate com sal só pra não me acharem gulosa demais, só pra não correr o risco de perder o direito de estar ali comendo tomate com sal.
já ri em tantas brincadeiras idiotas, já passei dias e mais dias brincando de coisas que eu não gostava.. só pra poder ser convidada pra brincar sempre. só pra ser aceita em todos os momentos antes e depois de comer tomate com sal. já me diverti com tanta mentira, já agradeci muito por poder, apesar de toda a mentira, estar em algum lugar com alguma pessoa que soubesse fingir fazer questão da minha companhia.

cresci repetindo tudo isso. até que acreditei tanto em todas as mentiras que pensei que já não tinha mais mentira nenhuma. que as coisas estavam, finalmente, se tornando verdadeiras, duradouras, recíprocas, maduras.. que as pessoas estavam me conhecendo de verdade, que me amavam, me precisavam não só perto, mas longe também. e ai chega esse momento em que a desculpa para tudo é que estamos crescendo e que crescer dói.
que crescemos nos vendo cada vez mais sozinhos, que crescemos cada vez mais distantes do mundo e cada vez mais próximos de nós. talvez por isso tantas perdas. fica mais difícil olhar para o outro, compreender o outro, cuidar do outro, amar o outro. né? num é isso? e a vida vai ficando corrida, não sobra mais tanto tempo pra essas coisas de lidar com os outros mundos que também estão crescendo e rodando por ai. né? é isso? é assim que se explica?

que seja. não importa. sei que não tem volta. não tem volta porque deve ter tudo se acabado mesmo, não há mais papéis, nem pedras, só um resto de qualquer coisa que, por um acaso, ficou daquele tempo de quando haviam papéis e pedras em cima das mesas. e é como se não houvesse mais outra possibilidade, é como se fosse mesmo o fim de tudo.

agora tenho que seguir sendo pedra e papel para tudo isso que existe aqui dentro de mim. ou tenho que me forçar a acreditar que há, ainda, algumas possibilidades. se eu fingir mais um pouquinho, me anular mais um pouquinho, posso ter ainda alguns papéis para pesar. mas não tenho forças pra isso. é como se estivesse totalmente imersa em um monte de óleo pesado, feio, fedido, nojento, e não consigo me livrar disso, me afundo cada vez mais. quero tirar tanta coisa de cima de mim, tanta. quero tirar esse peso de pedra que já não suporto mais. desde que tive que ser pedra e papel, não tenho me aguentado mais. será que se sentiam assim todos aqueles papéis que deixei voar? será que foi voo mesmo? alívio diante da minha ausência? será que é disso que preciso para me sentir melhor?

como me ausentar daqui? como me livrar de mim mesma? e o medo que dá de continuar, mesmo livre de mim, sentindo todas essas faltas?

"Thousands of answers,
for one simple question,
come take the weight off me, now.

I'm like a kid who just won't let it go,
Twisting and turning the colours in rows,
I'm so intensified that's what it is.
This is my Rubik's Cube
And all i can't figure it out.."