terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Amor em cinco atos - II


"(...) há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus, seria bom: quatro paredes, eu, você e Deus. Procuro explicar o meu sentimento e só consigo encontrar palavras que não existem no dicionário, você podia entender meu vocabulário, decifrar meus sinais, seria bom." Marisa Monte.



21.
eu sabia que não podia ser loucura, eu sabia, eu sabia que partiria de mim, mas que ela não iria fugir. só que sabia, também, que aquela não era a hora, não era a hora, mas foi. e foi lindo, bem como deveria ser. não me lembro muito bem da ordem dos acontecimentos, mas me lembro que tudo começou com um cafuné, um dar de mãos, pedidos de desculpas, lágrimas, distanciamentos, abraços e "eu queria poder corresponder" seguido de um doce encostar de lábios.

mentiria se dissesse que não encostei meus lábios. encostei, sim, mas só. queimava tanto que as lágrimas não paravam de cair. não fui eu quem abalou a imobilidade dos lábios que, docemente, se encostavam. não fui eu. tive medo quando percebi que ela se movia, mas nada em mim me convencia a continuar parada. e a boca tinha exatamente a mesma maciez que eu imaginava, a mesma temperatura, e eu tinha certeza que sentiria aquela mesma dormência quando tocassem-se as línguas.

eu não podia parar, eu não podia perder, e não podia nada, e doía. daquelas dores que transbordam e atingem cada pedaço provocando um misto de alegria e desespero e arrependimento e vontade sem fim. depois mais distanciamentos, pedidos de desculpas, lágrimas, juras, medos, e um novo encostar de lábios. não me movi. de novo. e ela me embalando com aquela troca que já parecia nossa. aquele beijo que já sentia há muito, apesar de nunca ter sido.

minha mão no pescoço, meu coração na boca, minha boca nela. dela. as pessoas chegam e "boa noite". o que não entendo é de onde veio a falta de capacidade de corresponder que ela me disse ter. e por que o beijo então? sugeri que esquecêssemos tudo. sugeri que acreditássemos que tinhamos bebido além da conta e que, por isso, passamos dos limites. "não".

01.
ela não queria esquecer, nem colocar a culpa em outra coisa qualquer. ela queria. ela quis. não pode ser só loucura, não pode ter sido só o alcool. não é, não foi. estávamos juntas naquela dança, é claro que estávamos. se não era ela que correspondia, quem era então?

sei que tudo piora quando cai a noite. parece que algo nela me hipnotiza e me puxa e me cerca e me mata. tudo que é meu grita a vontade de se aproximar dela, mas fico. e dói. e dói porque não sei. não se se fico, se vou, se amo, se não, sei que as minhas chances de escapar estão se esgotando, mas nada me tira da cabeça que, no fundo, ela queria mesmo não querer corresponder.

09.
me armo, me visto em armaduras. me digo que me guardo. te vejo, me entrego.

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