"Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço (...) Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar. Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara." Caio F.
14.
não sei se é a sibutramina, cansaço, alegria ou amor. lembro que já senti algo parecido, mas parece que, no fundo, essas coisas que beiram à loucura nunca se parecem por mais parecidas que possam parecer. sinto, por dia, uns quatro ou mais, ou menos, sentimentos fortes e opostos.
alegria, tristeza, raiva, cuidado, amor, tristeza, alegria, paz, inquietude, raiva, nervosismo, amor, amor, dor, medo, força, solidão, completude, amor, grande, tristeza, desespero, medo e amor. e a inquietude é de corpo e alma, daquelas que fazem a perna bater, mexer, tremer, como se fosse para o mundo virar de cabeça pra baixo, como se fosse para fazer barulho, muito barulho, para silenciar o mundo meu.
e de tanto barulho me irrito, me irrito bem na superfície da pele, bem no meio do estômago. falta ar, falta mesmo. e me coço, me mexo, não paro. e o amor, não sei, o amor é novo, é quente, é frio, é lindo. mas não é meu, é dor, é medo, é triste e lindo, e cuido e me completo só. só. sem ser amor do amor que amor. é mesmo novo, mas forte, e impossível, sabe? impossível porque vejo que é vidro ou sonho, e se esvai, e se quebra, no menor dos movimentos.
23.
e tenho que me conter, tenho que me calar, tenho que me controlar em meio a tanto descontrole. já não sei mais o que sentir diante desses olhos azuis brilhantes, explodo tudo aqui dentro para evitar vazar aqui fora. mas eu sei que vaza, eu sei que ela toca algumas dessas erupções, sei que ela fica. ela toca e fica. eu juro que fica. não pode ser só imaginação, nem loucura. não pode ser, porque eu quero muito que ela fique. mas quero mais que isso e não quero querer mais, eu juro que não quero, porque são tão lindos os olhos que não sei se saberei apreciar o azul do céu sem me lembrar do azul daquele olhar. acho que, mesmo que tudo acabe agora, eu nunca mais vou deixar de me afogar nesse mar.
e me afogo de perto. não sei se conseguiria nadar para ver um pouco mais de longe. não sei se me afogaria mais, não sei se conseguiria chegar em terra firme, não sei se quero tentar me salvar desse afogar de amor. não sei se posso, se devo. não sei.
e paciência? não consigo outra palavra que me irrite mais agora. porque é urgente demais, é tanto, tanto, mas tem a música, que veio com ela como se soubesse que seria preciso. a música veio com ela, dela, nela, como se soubesse que precisaríamos nos embalar. como se soubesse que eu precisaria me fazer falar de algum jeito, como se soubesse que eu precisaria ouvir todas as coisas mais bonitas do mundo só para não ter que dizê-las a ela.
56.
eu diria, juro que diria, muito menos que qualquer música, mas diria. e é tanto que ligo agora uma música e me calo. é tanto que me calo e ouço as coisas bonitas que ela ouve para calar ou falar o azul sem fim daquele mar-olhar.
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