tive um sonho horrível com você. é quase irônico chamar de sonho, mas prefiro porque tenho isso de acreditar que sonho mesmo é pesadelo que faz da vida sonho. sonho que faz da vida pesadelo não é sonho não, né? e agora me pergunto se um dia você já pensou que eu pensava assim da vida, assim do sonho, do pesadelo? acho que não, né?
a gente mal consegue conversar sem algum pretexto, sem algum objetivo pré-determinado, é engraçado isso. engraçado pra não dizer triste, né? engraçado para não dizer. quantas coisas não foram ditas, né? quantas coisas continuam a não ser ditas. engraçado, né? se você soubesse o quanto foi difícil te ligar para ouvir a sua voz, ah, foi mesmo muito difícil. e foi difícil pra você falar só para que sua voz fosse ouvida, não foi? eu sei que foi. eu sei que você esperava que eu pedisse alguma coisa. é sempre assim, né? eu sei, eu sei, desculpa.
de todas as coisas que não foram ditas, de todas as coisas que continuam a não ser ditas, tem uma especial que eu quero dizer. quero mesmo, só não sei como, nem quando, nem onde, mas quero. quero dizer que tenho reparado em todas as suas mudanças, juro. nada tem sido em vão, nada está passando despercebido, eu vejo cada pedaço do seu esforço, não sei muito bem como vejo, porque mal te conheço, mas vejo, eu juro. não só vejo como me orgulho muito. e o quanto eu choro agora para dizer isso, é mesmo muito engraçado. é tão difícil, é tão pesada essa necessidade de te punir por tudo, para sempre. me dói tanto essa mágoa, tanto que até quando ela se desfaz em perdão parece que vai rasgar o peito. nada nesse mundo alivia essa minha dor de não poder entregar amor a você, sabe? meu amor sempre sai medido, contado, cuspido. logo pra você que mudaria as cores do céu pra mim se eu pedisse. aliás, uma das suas mudanças mais lindas foi a de aprender a me dizer 'não'. você se perdoou, né? eu vi. você se permitiu não mais abrir mão de você, você se colocou à frente de mim, você colocou sua humanidade à frente da minha mágoa, nada mais justo que isso.
quem sou eu para te punir assim? quem somos nós para nos punirmos assim? sempre me disseram que você nunca mudaria nada por mim, nem por ninguém. a gente só muda mesmo quando é pela gente. já achei isso um absurdo, uma falta de amor, mas não. é o que há de mais verdadeiro e certo nessa vida. nunca daria certo se você me amasse por me amar e só. se mudasse por me amar e só. eu não daria conta de carregar esse peso, não daria conta de ser condição para sua estabilidade, não daria. você tem mesmo que querer estar melhor por você, e só por você.
ando tendo muita vontade de te conhecer, sabe? de me aproximar, de te ouvir mais. de aprender com você algumas coisas, não precisa se preocupar em não ter feito faculdade, não precisa, quero mesmo aprender coisas da vida, quaisquer coisas de qualquer vida, desde que seja com você. dia desses te perguntei algumas coisas da estrada, só pra aprender com você. eu sabia a resposta pra minha pergunta, mas queria aprender com você, pai.
mas a gente tá caminhando, né? eu sei que estamos. tive tanta vontade de te abraçar quando você leu pra mim os bilhetinhos que escreveu pra vovó todos os dias em que ela esteve no hospital. tanta vontade, pai, tanta. você leu e ia jogar fora, né? eu quase te deixei jogar fora. fiz uma força imensa pra conseguir dizer: "guarda, pai, você não tava guardando?" - mas é que ainda não aprendi a te dar o meu amor. aprendi a deixá-lo existir em mim, mas não sei como entregá-lo a você. e às vezes me bate um medo de ter pouco tempo.
eu não me perdoaria nunca se não conseguisse te dar amor a tempo. porque tem amor, pai, muito. eu te amo, eu te amo, eu te amo e tenho muito medo de ter pouco tempo.
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