"As coisas mudaram um pouco. eu (acho que você também) sempre tive a sorte de ter uma certa sensibilidade aguçada pras coisas. Como se eu tivesse sensações amplificadas dentro de mim. Eu costumava gostar de olhar a chuva da janela à noite e agora me lembro de que o fazia junto com a minha mãe quando era pequeno e ela fumava na janela. sou capaz de descrever muito bem a sensação. Tá bom, nem tão bem. Já faz muito tempo. só sei que era GENUINAMENTE bom ouvir os pingos, sentir o cheiro, as coisas molhadas lá fora e eu sequinho dentro e nada na cabeça porque o tempo parecia feito para que eu ficasse ali. só eu vagando no vazio da minha mente e me sentindo, me percebendo ali naquele lugar, com a chuva. E aquela sensação a mais que não dá pra explicar. E o melhor é que na época nenhum pensamento do tipo sequer passava pela minha cabeça e isso era realmente muito bom. E eu só percebo agora, lógico. Mas o fato é que agora é um pouco diferente. Mas nem tanto. Explico: é como se antes, o sentimento (ou seja lá o que for) viesse da chuva para mim, direto. Agora parece que há alguma coisa entre. Dá pra entender? e essa coisa prende parte do sentimento, deixando passar só um restinho. Aí eu começo a ter a sensação antiga e penso: ''tá vindo, ai que delícia'', mas aí não vem. Dá só um gostinho. Porque o restinho que me atingiu não é forte o suficiente para fazer o estrago gostoso de que eu gostava tanto. Acho que é quase assim: antes eu gostava da chuva e agora eu gosto da ideia de gostar da chuva. Mas não totalmente assim, porque o primeiro sentimento (gostar da chuva) ainda resta em mim, só que pouqinho. Aí acaba que eu sinto que não estou em nenhum lugar nunca, como se eu fosse um fantasma ou sei lá o que.. isso é crescer?"
(Guilherme Legnani)
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