domingo, 10 de outubro de 2010

por um fio

"Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava." (Caio F.)

venho ensaiando falar sobre isso há um tempo. assim, é um isso que não sei ao certo o que é, mas que é, isso é. sei que de todos os cheiros, vozes, gostos e gestos, das músicas me lembro mais.

essa minha memória estranhamente danificada se fez aguçada para os sons. são sempre eles que me arrepiam na pele e trazem aos olhos o que (vi)vi de coração, são os ganchos meus do que ficou para trás, são as marcas do que levo comigo do mundo e de mim, de tudo que fui, de tudo que deixei de ser, de tudo que ainda sou, até do que serei.

sempre procurei pela minha fé, quer dizer, não foi sempre não, mas tenho procurado. e é mesmo muito engraçado como a gente procura as coisas com o filtro limitado dos conceitos: procurava minha fé naquela idéia absurda de não ter dúvidas. que força teria a fé se ela fosse fonte de certeza absoluta? nenhuma, ou quase nenhuma, porque certeza não há, absolutamente.

ando me perdendo nessa história de me encontrar, mas não é essa perda de perder, é perda de afogar, sabe? é mais ou menos isso mesmo, ando me afogando em mim. e é assustador esse oceano dentro da gente, é assustador o fundo que emerge para a superfície que se submerge em novo fundo: ondulamos.

e em meio a esses encontros ondulados das nossas mais diferentes correntes, qual é o fio que nos permite emergir, submergir, revirar fundo e superfície e, ainda assim, saber nadar em nosso mar? ''qual é o fio que nos une e nos separa'' de nós?

a fé é o fio. é a fé o fio que permite que a ressaca sempre se encerre em calmaria. é a música o meu fio da meada, é a música a minha fé e disso não tenho dúvidas. não é a fé que está na certeza, é a certeza que está na fé que temos.

Agradecimentos: Luísa Araujo

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