veio como uma cara de destino, como se estivesse escrito nas estrelas.. bem assim mesmo, dessa forma irritantemente fantasiosa. eu estava em um momento delicado e que se tornou ainda mais delicado quando ela apareceu. não achava justo sentir aquele frio na barriga e me pegar com um sorriso no rosto às 7 da manhã, enquanto a cada segundo desmoronava mais um pedaço de um relacionamento que, na época, não se definia como passado nem como presente.
sempre gostei muito de vozes, olhos, e bocas, mas muito mais de vozes. e como se não bastassem as coincidências que nos circundavam, ela me veio com uma voz doce, com timbre e tom em tão perfeita harmonia que meus ouvidos, já cheios de bocas, não mais queriam ouvir outra coisa no mundo. e foi assim que, com o ritmo do seu violão bem tocado e com a doçura de sua modéstia, De Conversa Em Conversa, Rosa Morena me envolveu.
a vontade de olhar nos olhos aumentava na velocidade com que crescia, também, a saudade que sentia quando podíamos nos falar apenas no final do dia. gostoso era sentir, de alguma forma, a reciprocidade verdadeira que havia ali, reciprocidade essa que nos levou ao tão esperado, por mim, olhar nos olhos. era inevitável o nervosismo diante de tanta expectativa, e era inevitável, também, a expectativa diante de tanto nervosismo.
foi aí que uma de nossas coincidências nos colocou em uma situação no mínimo incômoda e, no máximo, extremamente chata, mas foi sentar ao seu lado naquela sala de cinema que me deparei com a cabeça extremamente vazia de qualquer pensamento que não se relacionasse com a minha vontade enorme de, depois de olhar nos olhos, sentir seu corpo e beijar-lhe a boca. quando, depois de nos aproximarmos de milímetro em milímetro, ela encostou a sua mão na minha, me senti como uma criança com todo o resto do meu corpo coberto pelo frio mais quente que já pude sentir.
não nos beijamos ali, nem em outra ocasião. quando nos encontramos de novo (e pela última vez), também em uma sala de cinema, foi com a cabeça encostada em seus obros e a mão repousada em sua perna que senti, novamente, aquele frio extremamente quente. o frio devido ao ar condicionado, e o calor devido à proximidade distante que me encontrava de seu corpo.
confesso que passaria mais outros encontros em salas de cinema apenas segurando sua mão ou confortando minha cabeça em seus ombros, aqueles pequenos gestos me traziam uma sensação de estar envolvida por um calor tão terno e uma paz tão estonteante que hoje, depois que a distância que se escondia na proximidade de nossos corpos se sobressaiu, lamento a efemeridade do que vivemos, mas agradeço e tenho imenso carinho pela dona da voz encantadora, responsável por aquietar minha alma com sua melodia doce como o brilho de seus olhos, o toque de suas mãos e, até mesmo, o gosto do beijo que não vivemos, mas que pude sentir apenas por tê-lo desejado assim, intensamente.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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